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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A LIBERDADE É AZUL!

Começo da manhã,um radioso sol de primavera.Pontos cheios,os velhos ônibus apinhados,todas as suas cadeiras desconfortáveis ocupadas por passageiros sonolentos e largados.Muitos cochilavam,apesar do barulho do cunversê,dos celulares tocando enfurecidos e dos falsos mendigos e pedintes atacando os “otarianos”,que repartiam com eles seu suado dinheirinho.E mais ,a temperatura de 35º.

Junte a tudo isso,os neo-malucos de Edir Maiscedo a ler a bíblia em altos brados,ameaçando com o fogo dos infernos os descrentes,tipos sem coração que relutavam a entrar para o rebanho e pagar os sagrados dízimos.

Subindo a Contorno,eis que surge a vista deslumbrante do mar da Bahia.Amplo,vasto,azul,livre!

Os passageiros respiraram fundo a brisa marinha.

Chegando á Avenida Centenário,o coletivo parou no ponto do Shopping Barra,onde saltaram alguns,um visível ar de alívio no rosto.

Mas,subiu outro tanto e nada mudou;só o calor que aumentou para 40º.



O ponto da Airosa Galvão estava lotado;desceram três,subiram dez.

O ônibus despontou em frente ao Cristo.Uma brisa brejeira,brincalhona,alegre,reconfortou os massacrados passageiros.

A visão do mar,do verde da grama e das pessoas felizes que caminhavam rumo à praia,como que acalmou os passageiros.

De repente, o cobrador solta um grito aflito:



-Pára!Pára!

Assalto,foi o pensamento de todos.

E,o cobrador,enlouquecido,fera ferida,aos berros:

-Pára!Pára!

Assustado,o motorista freou.

O rapaz saltou pela porta traseira, arrancou a flanela vermelha do pescoço,jogou longe a camisa de brim,colada de suor,arrancou os sapatos,as calças,frenético,esquecido das contas,do trabalho difícil,do minguado salário,da mulher,das suas crianças remelentas,da sogra,do patrão,da casa miserável onde vivia,dos traficantes com quem cruzava pelas ruas tortuosas do bairro de periferia,da derrota do Bahia,do inferno,da polícia,dos assaltantes, do apontador,do fiscal,sacudindo os braços ao vento,que o engolfou,o invadiu,numa carícia prazerosa,correu em direção ao mar,atirou-se às ondas,mergulhou,satisfeito.

Não era livre,mas,naquele momento,estava.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A ETERNA MISS DE OLHOS AZUIS

A ETERNA MISS DE OLHOS AZUIS


Falar de Martha Rocha não é difícil;fomos contemporâneas.Ela nasceu em 19/09/36 e eu nasci em 1942.

Quando foi eleita Miss Bahia,em 1954 ,eu era uma adolescente de 12 anos,antenada com o mundo.

Maria Martha Heckel Rocha era a sétima filha do casal Álvaro,engenheiro e professor e Hansa,dona de casa.Família patriarcal,de classe média,seguia os costumes da época;moravam na Barra,passavam as férias em Mar Grande,na Ilha de Itaparica,mares onde muitas vezes me banhei.Dos irmãos de Martha,lembro do belo Gustavo e de Laura,que Martha dizia ser a mais bela do clã,e ,depois casou-se com um big shot da Ford e foi morar nos States.

A vida da bela menina de olhos azuis mudou,quando,Guilherme Simões,sobrinho do todo poderoso Simões Filho,dono do jornal “A Tarde”,convenceu-a a se candidatar a Miss Bahia.Os pais foram contra.Mas,não proibiram a filha de tomar decisões.Martha chegou ,viu e venceu.Pouco tempo depois aterrissava no Rio,com seus cabelos dourados e um corpo escultural.Miss Brasil,Miss Universo,o universo a seus pés.Tinha 18 anos.

Além da beleza,tinha carisma.Um sorriso contagiante.Nos States,desceu do avião como vencedora.Conquistou público e imprensa.Mas,perdeu o cetro;virou vice.Para a sengracice da Miriam Stevenson.Alguém aqui conhece?Sabe quem é?Dizem que Martha perdeu por duas polegadas a mais.Segundo ela,suas medidas nunca foram tomadas.

Por duas polegadas a mais

Passaram a baiana prá trás

Por duas polegadas

E logo nos quadris

Tem dó,tem dó seu juiz...

...reclamava a marchinha de carnaval.

Mas,teve Hollywood aos seus pés e ganhou 30 mil dólares para fazer um comercial da Gessy-Lever.

Martha foi vítima daquilo que torna os baianos incomparaveis:a mestiçagem.Ela tinha sangue de húngaros,suíços,portugueses,espanhóis e negro,naturalmente;todo baiano autentico tem o pé na cozinha;daí a bunda,as polegadas a mais;daí os seios fartos.Daí,a inveja que a prejudicou.Chamava-se Martha Rocha e deixava “morta e roxa” de inveja anão só as americanas desbundadas,como algumas baianas,desta terra tão provinciana nos anos 50.Martha era muito “dada”,avançada”,era como falavam as mulheres que queriam os homens que queriam a ela e os homens que queriam a ela e que ela não queria.

Reza uma lenda,que,num baile de carnaval,Martha,ainda desconhecida,quis ir ao baile “Preto e Branco “do Baiano de Tênis,clube tradicional dos ricos de nomes quilométricos desta terra,tão orgulhosos que até parecia terem parido os antepassados;Na Bahia cinquentista,se você era apresentado a alguém,antes de lhe estender a mão,vinha a indefectível pergunta:-A que família você pertence?Quem não tivesse um nome coroado,dançava.

Pois é,o”aristocrático”,como era o slogan do Baiano,vetou a Martha.Bola Preta!

Depois quase eleita Miss Universo,o Baiano preparou um baile digno das mil e uma noites para homenageá-la;A moça que mostrou ao mundo que esse povo de feios,tinha beldades,também.Tudo pronto,convite feito,personalidades presentes,Martha teve em fim,sua vingancinha;não compareceu,nem deu explicações.

Casou-se duas vezes e teve três filhos.Teve muitos altos e baixos na vida,como todos nós;mas,superou tudo,graças á sua força,inclusive um câncer de mama.Hoje,se dedica aos netos e á pintura,sua paixão e fonte de renda.

Termino com a frase de Caymmi:”Eu nunca soube o que era mais belo,se os olhos de Martha ou o mar de Itapoan.”O Mestre sabia das coisas.