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sexta-feira, 20 de maio de 2011

ANDAR DE BUZÚ!


Ninguém gosta ninguém quer, mas, a maioria precisa; por isso eles passam lotados, desafiando a física, que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço.
Os passageiros são pessoas diversas  com itinerários e propósitos diferentes: uns vão ao trabalho, outros ao médico, os aposentados aos bancos, estudantes ás escolas; no horário de pico, raros saem a passeio; esses preferem o meio da manhã ou à tarde, quando o fluxo é menor.
Difícil é encontrar uma cara alegre ; o mau humor é geral.
Afinal ,arriscam-se a tudo;viajar em pé ,apertados como sardinha em lata ,vida de gado ,bolinados,roubados por descuidistas ,assaltados ,desconsiderados pelos outros passageiros ,humilhados por cobradores deseducados e ,motoristas despreparados  que não respeitam as paragens ,veículos velhos ,alguns devem ter vindo na bagagem da Família Real ,tudo para acirrar os ânimos e fazer essas pessoas chegarem  como um trapo ,ao seu destino.  Daí ,as confusões que acontecem.
Naquele espaço exíguo e  apertado ,ainda cabem vendedores ,pedintes com estórias estapafúrdias, velhotes irritados que reclamam de tudo ;mas ,como tudo na vida tem um lado engraçado,estórias incríveis  acontecem envolvendo passageiros ,que nos fazem morrer de rir.
Aqui em Salvador tem um bairro chamado Pau Miúdo , onde fica um hospital muito procurado. Nos anos 60 ,a gente tomava esse ônibus numa paragem na Ladeira da Praça ,no centro histórico perto do hoje famoso Pelourinho. Muitas “baianas”de acarajé tomavam esta condução para ir e voltar do “ponto de venda” ,pois sendo o Pau Miúdo,um bairro popular ,muitas moravam por lá,numa ladeira íngreme ,que constituía quase todo o bairro.
Minha tia Idalina era enfermeira do Hospital Santa Terezinha  e , um dia   levou-me ao trabalho dela.    O ônibus chegou , nos preparávamos para subir ,quando uma senhora gorda  com uma cesta enorme e pesada na cabeça e perguntou ao cobrador:
-Pau miúdo sobe moço?
E , ele , com uma cara bem safada , respondeu:
-Depende, dona.
Ela só queria saber se o raio do ônibus subia a ladeira.
Há uns anos atrás eu ia ao  centro , resolver qualquer coisa , quando peguei um transporte  com  quase todos os assentos tomados; só havia um livre , na minha frente, ocupado por um senhor magrinho , vestido de branco, lendo um jornal.   Entrou ,pela frente  uma senhora idosa, muito gorda e, com um bundão,que ,se ela distribuísse para duas pessoas ,ainda haveria de lhe sobrar bastante.Apresentou seu passe de idoso e sentou-se ao lado do enfezado cavalheiro; e ,aí, começou a discussão.Ele falou:
-A senhora pode chegar mais prá lá, pois está me apertando na cadeira?
A mulher removeu suas banhas mais para o lado do corredor, porém, ele voltou á carga:
-Dona , a senhora está me incomodando, eu quase estou saindo pela janela do ônibus...
A mulher olhou de cara feia e disse que não podia aliviar mais. Ele retrucou , já bastante irritado:
-Com toda  esta bunda a senhora não deveria andar de coletivo para incomodar todo mundo. Vá de táxi.
A mulher , possessa, respondeu:
-O sinhô queria que eu deixasse minha bunda em casa!? Prá onde eu for ,tenho que levar.Ora,faz-se da roça,moço...

Era  ou   não era  divertido?

*Buzú é como os baianos chamam ônibus.      

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A LIBERDADE É AZUL!

Começo da manhã,um radioso sol de primavera.Pontos cheios,os velhos ônibus apinhados,todas as suas cadeiras desconfortáveis ocupadas por passageiros sonolentos e largados.Muitos cochilavam,apesar do barulho do cunversê,dos celulares tocando enfurecidos e dos falsos mendigos e pedintes atacando os “otarianos”,que repartiam com eles seu suado dinheirinho.E mais ,a temperatura de 35º.

Junte a tudo isso,os neo-malucos de Edir Maiscedo a ler a bíblia em altos brados,ameaçando com o fogo dos infernos os descrentes,tipos sem coração que relutavam a entrar para o rebanho e pagar os sagrados dízimos.

Subindo a Contorno,eis que surge a vista deslumbrante do mar da Bahia.Amplo,vasto,azul,livre!

Os passageiros respiraram fundo a brisa marinha.

Chegando á Avenida Centenário,o coletivo parou no ponto do Shopping Barra,onde saltaram alguns,um visível ar de alívio no rosto.

Mas,subiu outro tanto e nada mudou;só o calor que aumentou para 40º.



O ponto da Airosa Galvão estava lotado;desceram três,subiram dez.

O ônibus despontou em frente ao Cristo.Uma brisa brejeira,brincalhona,alegre,reconfortou os massacrados passageiros.

A visão do mar,do verde da grama e das pessoas felizes que caminhavam rumo à praia,como que acalmou os passageiros.

De repente, o cobrador solta um grito aflito:



-Pára!Pára!

Assalto,foi o pensamento de todos.

E,o cobrador,enlouquecido,fera ferida,aos berros:

-Pára!Pára!

Assustado,o motorista freou.

O rapaz saltou pela porta traseira, arrancou a flanela vermelha do pescoço,jogou longe a camisa de brim,colada de suor,arrancou os sapatos,as calças,frenético,esquecido das contas,do trabalho difícil,do minguado salário,da mulher,das suas crianças remelentas,da sogra,do patrão,da casa miserável onde vivia,dos traficantes com quem cruzava pelas ruas tortuosas do bairro de periferia,da derrota do Bahia,do inferno,da polícia,dos assaltantes, do apontador,do fiscal,sacudindo os braços ao vento,que o engolfou,o invadiu,numa carícia prazerosa,correu em direção ao mar,atirou-se às ondas,mergulhou,satisfeito.

Não era livre,mas,naquele momento,estava.