quinta-feira, 29 de julho de 2010
ENTREVISTA DE ESCRITORA MIRIAM DE SALES OLIVEIRA AO SITE WHOHUB
ESCREVER
Como você começou a escrever? Quem lia para você ao principio?
Fui alfabetizada muito cedo.Lia os livros infantis de Monteiro Lobato,escritor marcante na minha infancia.
Gostava de estórias cheias de mistério e aventuras contadas por minha avó materna.
Tinha uma imaginação muito fértil e muitos livros em casa.Acho q/ foi esta combinação explosiva(rsss)que começou tudo.
Minha mãe e minhas tias maternas liam para mim;mas,como disse,comecei cedo.
Qual é seu gênero favorito? Algum link onde possamos ver ou ler algo sobre sua obra recente?
Como leitora,gosto de ficção.Um bom romance,um livro de crônicas,contos.
Como autora adoro escrever sobre o dia - a- dia,captar o cotidiano,fazer pesquias históricas e escrever sobre os fatos do passado.
Nos meus blogs escrevo contos,crônicas e artigos.
Como é seu processo criativo? O que ocorre antes de se sentar a escrever?
Escrever é como respirar.
Os fatos vão se sucedendo,as idéias aparecendo,sai o texto.
O escritor é um observador do cotidiano,uma coisinha simples,não percebida pelos outros é identificada por nós e vira romance;ou conto,ou artigo.
Que tipo de leitura ativa sua vontade de escrever?
Acontecimentos recentes,fatos históricos;gosto de fazer crítica política,comentar o que se passa pelo mundo,que vejo com olhos bem -humorados.
O humor é a tônica da minha escrita.
Mas,me indigno facilmente e repasso essa indignação para meus leitores .
No estilo literário,a produção de imágens é espontânea,ou não é produção,mas,sim,uma fabricação de imagens.Nem sempre os textos muito burilados são os melhores.
Escreva como quem mija,dizia Lobato.Renda-se à sua imaginação e deixe fluir.
Quais são para você os ingredientes básicos de uma historia?
A história vive desde tempos imemoriais;antes mesmo de começar a linguagem escrita as pessoas já se comunicavam por sinais e transmitiam novidades sobre mortes e caçadas.
Mas,hoje como ontem ,os elementos são os mesmos:amor,ciúme,morte,dor,nascimento,aventuras,suspense.
Todo escritor genial tem o condão de conduzir o leitor até o climax da história.Ele pensa em imagens e seu texto é figurativo,baseado não só no seu estilo e originalidade,mas,principalmente nas suas vivencias.
Alguns escrevem como um jardim florido real e palpável,outros desenham uma aquarela:essa diferença revela um texto com vida própria;ou,não.
O melhor escritor do mundo é aquele que,quando você termina o livro tem vontade de ligar prá ele,dizia Salinger.
Em que sapatos você se encontra mais cômodo: primeira pessoa ou terceira pessoa?
Em ambos; muitas vezes conto meus casos pessoais em que sou protagonista como se fosse uma outra pessoa;outras,tomo e vivencio as dores ou alegrias daquela terceira pessoa como se fosse eu.
WH Que escritores conhecidos são os que você mais admira?
Saramago,Machado de Assis,Thomas Mann,Lobato,Fernando Pessoa,Hemingway.São tantos...
WH O que torna um personagem crível? Como você cria os seus?
O personagem só será crível se parecer com um ser humano real;um personagem é construido de pequenos pedacinhos de pessoas com as quais o escritor conviveu,e,em alguns casos,um dos personagens de uma estória é o alter ego do próprio escritor.
Meus personagens sairam todos da vida real.
WH Você é igualmente hábil contando historias oralmente?
Parece que sim.Faço palestras e as pessoas gostam,pedem bis.
Procuro por alma nas minhas falas,detesto palestras enfadonhamente lidas,sem entonação ou entusiasmo.
WH Profundamente em sua motivação, para quem você escreve?
Para aqueles que precisam de uma dose de alegria e um pouco de reflexão.E para mim ,também;é uma espécie de catarse.
WH Escreve como terapia pessoal? Os conflitos internos são uma força criadora?
Para a maioria dos escritores,parece que sim;Kérouac,Salinger,Clarice Lispector;para mim,não.
Os conflitos são uma força criadora,mas,eu sou bem resolvida,escrevo por prazer.
Mas,não sou gênio,como Balzac ou os rebeldes em geral.
WH O feedback dos leitores serve pra você?
Com certeza;escrevo para ser lida e comentada.
Como escritora de Internet,posto em vários sites,jornais virtuais e gerencio quatro blogs.Recebo centenas de comentários que inflam meu ego.
Na Internet,onde tudo é "free",esse é o salário do escritor.
WH Você se apresenta para concursos? Você recebeu prêmios?
Participo pouco de concursos literários.
Mas,recebi recentemente um Prêmio de uma revista de Salvador.
WH Você compartilha os rascunhos de suas escrituras com alguém de confiança para ter sua opinião?
Não.Para mim, escrever é um ato solitário.
WH Você acredita ter encontrado "sua voz" ou isso é algo eternamente buscado?
A busca do "eu" interior é eterna.
E eu sou muitas e ainda vou continuar como mutante até partir;mas,escrever ajuda o auto-conhecimento.
WH Que disciplina você se impõe para horários, metas, etc.?
Escrevo sempre pela manhã quando a casa está calma eo telefone não toca.Detesto ser interrompida,principalmente por ninharias e,para mim,qualquer coisa que não seja o ato de escrever,naquele momento é ninharia.
WH De que você se rodeia em seu escritório para favorecer sua concentração?
Paz,silencio e meu cachorro.
WH Você escreve na tela, imprime com freqüência, corrige em papel...? Como é seu processo?
Escrevo direto no word,leio,reviso,corrijo e salvo,se for livro ou posto se for na internet.Simples,assim.
Que sites você freqüenta online para compartilhar experiências ou informação?
Além dos sites e blogs que escrevo,o facebook,o google buzz etc.
Falando nisto,meus blogs:www.contosecausos24x7.blogspot.com
www.mirokcaconversafiada.blogspot.com
www.fiatluxblogspotcom.blogspot.com
www.abahiadeoutrora.blogspot.com
Sites:
Recanto das Letras
Usina de Letras
Portal Literal
Portal Luis Nassif
O melhor da web
Artigonal
Milhafre
Apolo
Livros Publicados:
Textos Seletos
Livro da Família
Maktub(e-book)
Contos e Causos
A Bahia de Outrora
Antologia Cidade IV
[mirokca]
Miriam de Sales Oliveira
Salvador,Bahia,Brasil
© Miriam de Sales Oliveira
Endereço web desta entrevista: http://www.whohub.com/mirokca
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quarta-feira, 28 de julho de 2010
O CENTENÁRIO DO VESÚVIO
Um velho e alegre senhor está de aniversário.
Figura constante nos livros de Jorge Amado,sendo o favorito da Gabriela,aquela morena apaixonada pelos quibes e pelos quimbas do turco Nacif,o famoso bar está centenário ,mas,com disposição de cinqüentão,sempre a espiar as belas mulheres e a se cercar de figuras alegres,boêmios,putas,e,naturalmente turistas.Que olham para cima tentando ver a Gabriela a marinhar pelo telhado.
Se o passante for de viagem curta, nem dá para apreciar a paisagem,a bela igrejinha,onde tantos ricos e empertigados coronéis rezavam as suas missas,nem as belas praias,nem a calma singela de cidade de interior com alma de metrópole.
Afinal, foi aí,no São Jorge dos Ilhéus,que aquele Jorge,o Amado,garimpou suas estórias que hoje correm mundo.
Quantas vezes me sentei nas mesinhas azuis do Vesúvio,tentando imaginar quantas pessoas,quantos romances ali começaram e terminaram,entre os deliciosos chopps geladinhos e os quibes famosos,de receita mais escondida que a da coca-cola,mas que eu sei que leva desde hortelã até pimenta rosa.
Hoje, está modernizado, mas,sem perder a magia.
Este bar foi criação de dois italianos, Nicolau Carichio e Vicente Queverini,que puseram o nome de um vulcão da sua terra.
O segundo dono,um português,por nome Figueiredo,que dizem as más línguas era amigado com uma bela mulata,de anca empinada,que levava hordas de rapazes ao restaurante só para vê-la passar.
O bar foi tombado pela Prefeitura de Ilhéus e até apareceu na Globo,pois lá foram feitas as filmagens da novela Gabriela.
Nas décadas de 30/40,o bar era freqüentado por poderosos coronéis,para discutir política e negócios.
Os famosos quibes já existiam na época e o atual proprietário,Guido Paternostro,jura que ainda conserva a receita original,guardada a sete chaves.
Mas,aos quibes centenários ,veio juntar-se a “Moqueca Arretada”,com mariscos,camarões defumados,charque e ovos.Acompanha arroz,pirão e farofa de dendê.
Apareça lá e aproveite para sentar e dar dois dedinhos de prosa com Jorge Amado,sentado na mesa de entrada.
Depois que procurar Gabriela pelos telhados,beba seu chopinho,um dos dez melhores do Brasil,segundo uma pesquisa,se deixe embalar pela calma da noite e,até pode mudar o rumo da prosa;sempre tem alguém disposto a contar estórias dos coronéis e fofocas do Bataclan,onde “meninas” escolhidas faziam as delícias da rapaziada.
Bar Vesúvio
Praça D. Eduardo,190
Centro
Ilhéus,Ba
terça-feira, 27 de julho de 2010
LENDAS DA BAHIA: A MULHER DE ROXO
Qualquer baiano acima dos cinquentinha a conheceu.Em mim,despertava muita curiosidade quando a encontrava na porta da Slopper onde minha mãe fazia compras.Nós discutíamos suas origens e seus mistérios enquanto tomávamos chá no Salão das Duas Américas.
Calada,tímida e muito educada ninguém sabia de certeza quem ela era.
Hoje,sabemos.É uma das lendas mais gostosa de ser recordada nesta misteriosa cidade do Salvador.
Está presente aqui no belo texto do Gutemberg Cruz.
""Sempre de roxo, com roupas que lembravam o hábito usado pelas freiras, ela costumava perambular e dormir pela Rua Chile e imediações. Teria nascido em 1917 e morrido em 1997, aos 80 anos. Dizem que foi moça instruída, de boa família e que teria enlouquecido por causa de uma grande desilusão amorosa. O final da vida da Mulher de Roxo foi triste, assim como a sua imagem em vida, marcada pelo abandono de todas as coisas.
A história de Florinda Santos, a conhecida Mulher de Roxo, se transformou numa lenda urbana, uma figura mitológica conhecida por todos da localidade. Não importava se o dia era de chuva ou de sol, ela nunca faltava. Era só as portas do comércio da Rua Chile abrirem e dona Florinda já se encaminhava para a entrada da Slopper. Vestida com roupa de veludo violáceo, iniciava o ritual diário. Andava de um lado para o outro, falava sozinha e sempre pedia dinheiro. Tudo com muita educação. Afinal, dizia-se que a Mulher de Roxo, personagem dos tempos diários do centro da cidade, vinha de boa família.
Andava descalça com longas mantas, um torço e um enorme crucifixo. Tudo isso dava a ela um ar meio santo, meio louco, meio andarilho e meio mendigo. Algumas vezes a dama desfilou com uma roupa de noiva, com direito a buquê, véu e grinalda. Com todos esses componentes cênicos, contraditórios e demasiadamente humanos, a mulher de roxo despertou sentimentos em toda a cidade, medo e respeito, pena e carinho.
Qual sua origem? Poucos sabem direito. Uns defendem a tese de que havia perdido a fortuna e enlouquecido; outros apregoavam que teria visto a mãe matar o pai e depois suicidar-se; terceiros garantiam, ainda, que ela perdera a filha de consideração e a casa, na Ladeira da Montanha, numa batalha contra o jogo. Outros ainda contam que ela enlouqueceu porque teria sido abandonada no altar. Em outros depoimentos,. aparece como uma bela mulher, a mais cortejada dentre as freqüentadoras do chá no final da tarde na Confeitaria Chile e como ex-professora em Paripe. Florinda, que nunca contou a ninguém, sua verdadeira história, perambulava com suas vestes roxas, inspiradas nas roupas das suas santas de devoção.
Vestida de freira, circulava livremente pela rua mais badalada de Salvador. A estranha indumentária, que incluía ainda um grande crucifixo, a transformou na Mulher de Roxo, a principal lenda urbana da capital. Foi assim que Florinda, a mendiga que jurava ser rica, passou a ser a personagem lendária, surgida, do nada, em frente à loja Sloper, nos anos 60 do século XX, em Salvador. Quando se enfeitava, com maquiagem forte no rosto e nos lábios, ela usava o espelho retrovisor dos automóveis estacionados. Como sanitário, servia-lhe qualquer território mais calmo. A Rua Chile era sua verdadeira casa, seu mundo, seu reinado. A intimidade com a rua era tão grande que ela sempre andava descalça. Na fachada da loja Sloper, localizava-se o seu trono de sarjeta. Na Rua Chile, chegava sempre muito cedo, circulava pelo centro e só recolhia o seu saco preto ao meio-dia, quando almoçava. Ao final do dia, voltava, andando, ao albergue noturno da prefeitura, situado na Baixa dos Sapateiros.
Muitas reportagens foram publicadas na época sobre a mulher de roxo ou dama de roxo. O jornalista Marecos Navarro gravou uma entrevista exclusiva com ela e é um dos raros documentos em que é possível ouvir a voz de Florinda. Em 1985 o cineasta baiano Robinson Roberto documentou um vídeo em Super 8 em que a mulher de roxo diz morar no albergue há três anos, e revela pertencer à família Rainha Princesa. Foi também personagem retratado na Galeota Gratidão do Povo, painel de 160 metros quadrados pintado por Carlos Bastos, que decora o plenário da Assembléia Legislativa.
Ela era tão cinematográfica que até inspirou um personagem do cineasta Glauber Rocha no filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969). A moça de manta roxa do filme era baseada na lenda viva da Rua Chile. Ela também inspirou o documentário A Mulher de Roxo, produzido pelo Pólo de Teledramaturgia da Bahia. O vídeo de 12 minutos, dirigido por Fernando Guerreiro e José Américo Moreira da Silva, mistura documentário e ficção. Haydil Linhares é uma das atrizes que vive Florinda Santos, a Mulher de Roxo.
A personagem lendária da Rua Chile hoje é só lembrança. Se em vida foi famosa ou anônima, rainha ou plebéia, foi uma lenda urbana de Salvador. Enclausurada em si mesma, ninguém conheceu sua verdadeira história, de riqueza ou pobreza, de princesa abandonada no altar ou professora. Talvez ela fosse tudo que sempre queria – uma personagem lendária que sobrevive no imaginário popular. Longa vida para essa dama/santa com sua aura de mistério."
(Gutemberg Cruz)
Gutemberg Cruz é jornalista e escritor.
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