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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

VAMOS FAZER CARURU!


      
Ontem foi dia dos Santos Gêmeos, dia de comer caruru.
 O quiabo é uma planta africana chamada calulu, daí o nome do famoso prato. Desde cedo, as donas de casa alvoroçadas, cortando os quiabos, (depois de bem lavados e enxutos numa toalha limpa, para secar a baba.) triturando as castanhas, amendoins, cebolas, gengibre, camarões secos, tudo para fazer a comida ao gosto dos ibejis. depois de triturado no pilão, junta-se o quiabo cortadinho bem miúdo e põe-se um pouco do azeite; não se coloca água; quiabos, temperos e azeite postos nas panelas, mexe-se constantemente para não pegar e vai-se acrescentando o dendê, quando necessário. Não esquecer o sal.
 Pronto o caruru, arruma-se a mesa, com a separação ritual: o caruru dos meninos, seguindo todos os preceitos; o dos grandes, á vontade. caruru, vatapá, efó, arroz de hauçá, cana cortadinha, farofa de azeite, abará, acarajé, pipoca branca, feijão fradinho, banana frita, cocada puxa, o banquete do santo. a bebida de Cosme é o aluá de abacaxi, feito com a infusão das folhas da fruta, depois de bem lavadas e macerando de um dia para o outro.
então é só degustar essas maravilhas, mas, primeiro que tudo se deve alimentar os meninos: coloca-se uma porção de cada iguaria numa "quartinha” de barro e agradece os benefcios recebidos e/ou pedem-se outros. Deixa-se  a comida por três dias, depois recolhe-se a quartinha e joga-se num matinho verde.
Pode-se oferecer a comida dos santos todos os meses do ano, exceto novembro, mes dos eguns.
A mesa dos meninos é um caso á parte, como ensinou Maria de S. Pedro, quituteira de primeira, dona do restaurante que tinha o seu nome, no Mercado Modelo. Dizia D. Maria: Todos os pratos da festa devem estar sob uma pequena mesa: caruru, pipocas, amendoim, farofa de azeite, cana cortadinha, banana frita, arroz branco, abará, abóboras, acarajé, milho branco, coco cortado em pequenos pedaços, galhinha de molho pardo e ovo cozido. Enchia-se uma bacia grande que se punha no chão bastante limpo e forrado. Chamava-se  os sete meninos mais jovens; as crianças, entre sete e oito anos abaixavam-se em volta da bacia; As crianças mais velhas e os adultos batiam palmas ritmadas; D. Maria chamava:
 -Vem cá, vem cá, Dois - Dois.
Os pequeninos, simbolicamente, mantinham as mãozinhas por cerca de um minuto sobre o caruru, começando, a seguir, todos juntos a jantar. Todos cantam com alegria e entusiasmo, mantendo o ritmo das palmas:
 - Eu te dou de comê, Dois - Dois! Eu te dou de bebê, Dois - Dois; os versos são cantados sete vezes,  depois, passa-se para outros:
S. Cosme mandou fazer
Uma camisinha azul.
No dia da festa dele
S. Cosme quer caruru.
Vadeia Cosme, vadeia
Vadeia, Cosme, na areia!
Vadeia, Cosme, vadeia,
Vadeia, Cosme, na areia!
Eu tenho pai
Que me dá de comê.
Eu tenho mãe
Que me dá de bebê.
Comido o alimento santo,
Os meninos esperam o sinal para levantar as mãos. Aí começa a festa dos grandes; Voltam às palmas e os cantos: Louvado seja, ó meu Deus
Que Cosme e Damião comeu.
Repete-se três vezes esses versinhos. Depois, os sete meninos e a dona da casa carregam a bacia para dentro da casa.

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

PRECE DE ARUANDA A SÃO COSME E SÃO DAMIÃO

Cosme e Damião, luzeiros espíritos da corte de Oxalá, amados benfeitores, queridos guias, nós vos imploramos a vossa proteção, força, saúde e resignação para que possamos cumprir com os desígnios de Pai. Dai-nos sempre os fluidos de paz, amor alegria e felicidade que vos são peculiares. Curai nossos males, fortalecendo nossos corpos materiais, proporcionando aos nossos espíritos as satisfações que lhes sejam agradáveis. Protegei-nos e a nossos familiares; protegei também, todas as criancinhas, para que tenham, a cada dia, uma vida melhor, sob o prisma material. Que vossos fluidos sacrossan-tos, recaiam sobre nossas cabeças, é o pedido que humildemente vos fazemos.

Saravá Cosme e Damião! Saravá toda Ibejada !

Que assim seja!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

OS SANTOS GÊMEOS




Nós os conhecemos como meninos levados;no Rio de Janeiro apreciam bombons e fazem brincadeiras infantis;na Bahia,esbaldam-se nas comidas que lhes são dedicadas e cobram total carinho e atenção de seus fieis,que são inúmeros.No dia de sua festa,27 de setembro,no meio da comilança e das danças,agarram no seu cavalo(filho ou filha de santo que “incorpora “a entidade)e fazem brincadeiras com os presentes,devotos ou não,falando com o tatibitate infantil e se lambuzando(e lambuzando os outros) de cocada puxa.rapadura ou caruru.São danadinhos,mas,não deixam seus devotos na mão.Pediu,recebeu.

Estudando seu passado para saber de onde vieram e como começou a tradição,descobri que foram médicos caridosos e dedicados,sempre cuidando dos pobres e desvalidos;irmãos no sangue,ligados pelo saber e sempre fazendo o bem sem olhar a quem.Quando os remédios faltavam recorriam á oração e benziam a água,que se transformava em remédio miraculoso.Eles trabalhavam em prol da Humanidade e,por amor;por isso eram chamados “os anargiros”,ou seja ,inimigos do dinheiro,epíteto que ,de jeito nenhum se aplicaria aos médicos de hoje,nem aos planos de saúde,

Eu os imagino,jovens e bonitos,morenos,pois tinham origem árabe,indo de casa em casa ,fizesse sol ou chuva,a sangrar,pensar,receitar,consolar e aconselhar.Vislumbro a alegria que essa gente desassistida,devia ter ao vê-los chegar.

Entregue a essa visão,ouço uma voz lá longe,gritar:Missa pedida prá S.Cosme e S.Damião!

E,alguém respondeu:

-Eles mesmo que nos ajudem.

Na Bahia,os médicos abnegados foram substituídos pela negra carregando uma caixinha de papelão mal ajambrada,com pequenas imagens de argila,metidas no fundo,arrodeados por um monte de manjericão,melindre,malmequeres,misturados com papel de seda,cortado.

Como boa baiana,deposito minha moedinha na caixa,mas,converso com meus botões:-Prá que santo quer dinheiro?Eles têm tudo!

Quem pediu a moeda explica que é promessa;o santo lhe valeu,tem que pagar o prometido-missa e caruru-e,como é pobre,pede para poder cumprir o prometido.

-E,eu com isso?quem pariu Mateus que balance...Seria fazer cortesia com chapéu alheio.

A desculpa é que é um preceito,é assim desde que o mundo é mundo.Vá lá!Embora tenha malandro que pede prá “caninha”,o santo não vê nem o cheiro da oferenda,muitos cantam assim:

São Cosme e S.Damião

Fizeram combinação

Saírem pedindo esmola,

Meu irmão,

Para fazerem um pirão.

O dinheiro era para fazer o pirão do santo ou do espertinho que pedia?Ficava a dúvida;mas,acho que os santos não se importam;até acham graça do expediente.

A negra da caixinha vai em frente,com seu cantochão monótono e,já,ninguém se lembra dos médicos caridosos(se é que,ao menos,sabem a estória).A lembrança que chega é de dois garotos endiabrados,caprichosos,gulosos,exigindo a paga dos benefícios que fizeram.Meninos que gostam de comida de azeite,samba,bagunça.

Ah,se a gente pudesse ver suas carinhas,quando os devotos colocam “quartinhas” de água e pratinhos de comida defronte de suas imagens!Eles,que nunca foram de freges e ,por força da sua fé,morreram degolados por ordem do Imperador Deocleciano.lá pelo ano de 287 em Egéia,na Cicilia,e,segundo Lísias,depois de várias torturas .para que desistissem de sua crença.O certo é que,na Bahia são adorados,inclusive por mim,que tenho um filho de setembro e netos gêmeos.Meu caruru,com tudo o que tem direito,não deixo de oferecer.Promessa é dívida.