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domingo, 5 de junho de 2011

O DONO DA CASA


Jonas não soube me contar direito porque expulsou de modo tão brusco a coitada da Dona Cadoca e seus oito rebentos da sua própria casa.
Senhora exemplar, apesar de um pouco chatinha,em nada influía ou contribuía para tornar sua vida melhor ou pior.Era uma folha em branco,só isso.
A única situação que Jonas define com clareza é a sua alegria ao se ver só,senhor absoluto do seu apartamento e das coisas que ele continha, principalmente a TV onde adorava assistir o futebol nas quartas- feiras enquanto a mulher não dispensava a novela.
Assim que percebeu que estava , enfim só, em vez do enfim,sós,tão agradável de exclamar doze anos antes, deitou-se na rede da varanda e dormiu o sono dos justos, livre do barulho das crianças  e do bulício da casa.
Acordou satisfeito,apanhou um livro e conseguiu fazer a mais deliciosa leitura da sua vida.
Bom,estava escurecendo, hora de pensar no jantar.
Foi fácil encontrar a cozinha que  a pobre Candoca tinha acabado de arrumar quando foi expulsa do paraíso sem que,ao menos,tivesse induzido a degustação do fruto proibido,que,dizem alguns,era uma maçã, mas, eu, particularmente ,não acredito por ser uma fruta muito insossa,ao contrário,por exemplo da manga espada,tão doce e sumarenta.

Bom,voltando á cozinha agora do Jonas,o mesmo, depois cavoucar a geladeira e  os armários  ,separou alguns ovos,uma lata de ervilhas, temperos e um saquinho de arroz.
-Farei uma bela comida,pensou ele.Ervilha com ovos e arroz bem temperado.
Enfileirados os ingredientes descobriu que faltava o sal.
-Diachos,resmungou,onde essa mulher guardava o raio do sal!?
Descobriu, enfim, o saleiro, porém, vazio e lavado.Provavelmente a esposa ou ex iria comprar um pacote no armazém próximo,agora fechado.
Daí lembrou-se que as mulheres adoravam sair de pires na mão pedindo ás vizinhas as coisas que lhes faltava.
Prontamente,bateu na porta do apartamento ao lado   e perguntou se podiam lhe emprestar um pouco de sal; devolveria assim que comprasse o seu.
Os vizinhos disseram que ficariam ofendidos se ele  fizesse isto e lhe deram um pacote fechado.
-Olhe,não esquente,”seu” Jonas,a cesta básica que a empresa do meu marido nos dá vem com dois pacotes de sal,uma estupidez!
Agradeceu e voltou ao seu ofício de cozinheiro.
Mas, em vez da ervilha com ovos,decidiu preparar um omelete,tão simples e prático de fazer.
Sua dúvida era como as mulheres conseguiam fazê-la tão redondinha e dourada,apetitosa para os olhos e o paladar.
Arrumou uma vasilha funda,quebrou os ovos com casca e tudo,misturou as ervilhas,os tomates,colocou sal,pimenta e canela em pó e amassou tudo com o pilãozinho do almofariz.
Agora,estava na hora crucial: como arredondar o ome lete.Despejou a massa num prato raso, apanhou a tampa da panela e tentou ,com esta,dar forma ao omelete.
Não conseguindo, desde que tudo se esparramava pelas bordas,resolveu fritar assim mesmo, já que não era uma obra de arte e,sim,uma refeição.
Neste momento pintou uma leve saudade da mulher que logo passou e ele saiu á cata do óleo de cozinha,pois tinha uma vaga lembrança que era frito.
Encontrou mais fácil o azeite doce e resolveu brindar-se com o que havia de melhor.
Gastar o azeite tão caro que era reservado apenas ao bacalhau do domingo,usando para fritar omelete lhe parecia um grito de liberdade.
Derramou parte do azeite na frigideira e quando aqueceu jogou a mistura lá dentro.
Pois a mistura uma vez no fogo,ensandeceu-se,começou a bufar e pipocar como louca ,uma casca do ovo,batendo justo no seu olho ,deixando-o provisoriamente cego.
Blasfemou,disse palavrões cabeludos que não costumavam freqüentar aquela cozinha, a mistura queimada lhe deu repugnância ,jogou tudo na lixeira e saiu para jantar.
Macho bem alimentado, dormiu o sono dos justos,de manhã tomou café no escritório, almoçou num restaurante a quilo e começou a pensar no jantar.Fritaria uns bifes.
Em casa,atrapalhou-se com as panelas; não sabia para que as mulheres precisavam de tantas e de formas diferentes.
Apanhou uma panela funda,encheu de óleo e colocou os bifes que comprou, já cortados, no supermercado.
Não se lembrou de lavá-los e temperá-los.Acendeu uma boca do fogão.
Eram sete da noite e meia hora depois entrou na cozinha para ver o resultado do seu trabalho.Sentia-se quase um “chief”,quem sabe um Adriá.
Decepção profunda! Encontrou uma coisa escura e malcheirosa que fervia soltando uma terrível espuma esverdeada.
Assustado, apagou o gás, certo de que aquilo deveria ser uma das bocas do inferno e a qualquer momento o diabo sairia dali empunhando um tridente.
Alucinado pela raiva e morto de fome correu para a casa da sogra atrás da mulher.
Foi recebido com impropérios e levou a porta na cara.
A mulher não voltou.


PALAVRA DO LEITOR:




"Miriam querida
O mais importante do causo é o humor com o qual você o tempera. Que habilidade, mulher!
Beijos,
Morgana Gazel",romancista baiana












sexta-feira, 25 de março de 2011

A COZINHA BAIANA


Cozinha e polidez: bons sinais de uma velha civilização!
Assim reza a  citação francesa para louvar a boa civilização patriarcal e dar nota 10 aos povos que cultuam essas qualidades.
Como os baianos, segundo Gilberto Freyre.
O mestre pernambucano,quando esteve em Salvador nos começos do século passado,encantou-se com a  delicadeza  dos baianos e ,especialmente, com a sua rica e variada cozinha,cujo sabor nunca esqueceu.
Encantou-se com o  modo de vestir das negras quituteiras e o desenho dos seus bolos e tabuleiros, tão místicos,com recortes de papeis coloridos , destacando-se na toalha de renda muito alva,num desenho perfeito para dar aos bolos,bombons e alfenins um realce que logo aguçava o apetite.
A cozinha das casas – grandes  com seus fogões a lenha,seus fornos de alvenaria de onde saiam os preciosos bolos de aipim, carimã,milho, biscoitos de polvilho,constituíam  um invencível reduto baiano.
As cocadas brancas ou queimadas,a puxa,os alfenins,os beijus, os mingaus,os bolinhos de estudante,também chamados  irreverentemente de “punheta”,os quebra – queixos,tão duros ,mas,tão saborosos e os pés – de- moleque, as mãe – bentas,os sequilhos de coco ou de nata,que desmancham na boca,as a-modas, com forte sabor de gengibre,fazem do tabuleiro da baiana um retângulo de sonhos ,num derramar de prazeres que  até virou música de Caymmi.
Até agora falei da doçaria, muito dela herdada dos lusos,mas,com forte influência mestiça e islâmica,graças aos malês.
Mestre Freyre dizia que como a Bahia deu os maiores estadistas do Império , os pratos mais saborosos da cozinha brasileira e tem o povo mais afável do Brasil, pode ser considerada, sim,uma civilização imbatível,que deveria ser citada sempre como exemplo na cultura mundial.
Casa de baiano está sempre aberta, coração de baiano  é bastante grande para acomodar novos amigos, mesa de baiano é sempre farta.”Bota água no feijão,sempre cabe mais um;onde come um,comem dois.Ou mais!”
Andei pensando, agora que resolvi  reler Freyre,um poço de sabedoria onde colhi muito do pouco que sei,que as casas refletem muito a personalidade dos donos;donos anti-sociais,fechados em si mesmo ,portas semi – abertas,o antipático –Quem é!?- rostos carrancudos.Cadeiras desconfortáveis,empertigadas,nenhuma cortina ou tapete para aquecer os pés.Quadros sóbrios,quando os há.Poucos enfeites.
Na  casa senhorial dos baianos a gente nota um deslumbre de  sofás e divãs,muita luz ,muito vidro e transparências,cores fortes,cadeiras alcochoadas e poltronas  confortáveis, cadeiras de balanço,rede nas varandas,bibelôs,abajurs com uma luz suave, rosas ou cravos nos vasos de cristais,tudo muito acolhedor, um ambiente em que dá vontade de sentar,esticar-se e repousar,falar besteiras,bebericar um licor e trocar confidencias.
Os licores são um assunto à parte que não deve ser esquecido.Servidos em licoreiras de bacarat,havia os de jenipapo,maracujá,passas,groselha,leite, rosas,violetas,os de banana de São Tomé,tão antigos quanto os de engaço,de excelente gosto e bom para curar tuberculose.
Portanto,se for à Bahia,não seja “um empada” (mero espectador inútil e inconveniente),”pegue direito”(coma bastante) e não se deixe enganar com a forma do convite:-“Quer passar mal”? ,pois em cozinha baiana sempre se passa muito bem.
Mas,se chegar numa casa e não for convidado,desabafe,dizendo:”Quem come e não me convida,rabo de gato na sua barriga”.

 Texto de Miriam Sales
Quer saber mais sobre a Bahia?
Peça "A Bahia de Outrora",através deste blog.
PALAVRA DO LEITOR:

Sábio observador nosso Gilberto Freyre! Finalmente tive a oportunidade de experimentar um pouquinho desta maravilha!! Voltarei, ah se voltarei!!!
Beijos minha Baianinha predileta.
Paulo



quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A COZINHA BAIANA



Cozinha e polidez:bons sinais de uma velha civilização!

Assim reza a citação francesa para louvar a boa civilização patriarcal e dar nota 10 aos povos que cultuam essas qualidades.

Como os baianos,segundo Gilberto Freyre.

O mestre pernambucano,quando esteve em Salvador nos começos do século passado,encantou-se com a delicadeza dos baianos e ,especialmente, com a sua rica e variada cozinha,cujo sabor nunca esqueceu.

Encantou-se com o modo de vestir das negras quituteiras e o desenho dos seus bolos e tabuleiros, tão místicos,com recortes de papeis coloridos , destacando-se na toalha de renda muito alva,num desenho perfeito para dar aos bolos,bombons e alfenins um realce que logo aguçava o apetite.

A cozinha das casas – grandes com seus fogões a lenha,seus fornos de alvenaria de onde saiam os preciosos bolos de aipim, carimã,milho, biscoitos de polvilho,constituiam um invencível reduto baiano.

As cocadas brancas ou queimadas,a puxa,os alfenins,os beijus, os mingaus,os bolinhos de estudante,também chamados irreverentemente de “punheta”,os quebra – queixos,tão duros ,mas,tão saborosos e os pés – de- moleque, as mãe – bentas,os sequilhos de coco ou de nata,que desmancham na boca,as a-modas, com forte sabor de gengibre,fazem do tabuleiro da baiana um retângulo de sonhos ,num derramar de prazeres que até virou música de Caymmi.

Até agora falei da doçaria, muito dela herdada dos lusos,mas,com forte influência mestiça e islâmica,graças aos malês.

Mestre Freyre dizia que como a Bahia deu os maiores estadistas do Império , os pratos mais saborosos da cozinha brasileira e tem o povo mais afável do Brasil, pode ser considerada, sim,uma civilização imbatível,que deveria ser citada sempre como exemplo na cultura mundial.

Casa de baiano está sempre aberta, coração de baiano é bastante grande para acomodar novos amigos, mesa de baiano é sempre farta.”Bota água no feijão,sempre cabe mais um;onde come um,comem dois.Ou mais!”

Andei pensando, agora que resolvi reler Freyre,um poço de sabedoria onde colhi muito do pouco que sei,que as casas refletem muito a personalidade dos donos;donos anti-sociais,fechados em si mesmo ,portas semi – abertas,o antipático –Quem é!?- rostos carrancudos.Cadeiras desconfortáveis,empertigadas,nenhuma cortina ou tapete para aquecer os pés.Quadros sóbrios,quando os há.Poucos enfeites.

Na casa senhorial dos baianos a gente nota um deslumbre de sofás,muita luz ,muito vidro e transparências,cores fortes,cadeiras alcochoadas e poltronas confortáveis, cadeiras de balanço,rede nas varandas,bibelôs,abajurs com uma luz suave, rosas ou cravos nos vasos de cristais,tudo muito acolhedor,ambiente em que dá vontade de sentar,esticar-se e repousar,falar besteiras,bebericar um licor e trocar confidencias.

Os licores são um assunto à parte que não deve ser esquecido.Servidos em licoreiras de bacarat,havia os de jenipapo,maracujá,passas,groselha,leite, rosas,violetas,os de banana de São Tomé,tão antigos quanto os de engaço,de excelente gosto e bom para curar tuberculose.

Portanto,se for à Bahia,não seja “um empada” (mero espectador inútil e inconveniente),”pegue direito”(coma bastante) e não se deixe enganar com a forma do convite:-“Quer passar mal”? ,pois em cozinha baiana sempre se passa muito bem.

Mas,se chegar numa casa e não for convidado,desabafe,dizendo:”Quem come e não me convida,rabo de gato na sua barriga”.